Moradias animadas

Posted on 31/08/2007

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por Jô Moraes

ladeira.jpgUm jovem do interior do estado, ao deixar a casa de seus pais em busca de um futuro promissor na capital, encontra algumas dificuldades pela frente. A solidão, o aperto financeiro, o desafio de viver na cidade grande são situações vividas pelos universitários de baixa renda ao chegar a Salvador. Entretanto, quando conseguem uma suada vaga numa das três Residências Universitárias mantidas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), além das matérias das aulas, os estudantes aprendem a viver em coletividade, a reivindicar seus direitos e a exercitar a cidadania.

Eneida Santana, 21 anos, estudante de Biblioteconomia, natural de Feira de Santana, conta que até conseguir uma vaga na R2 (Residência 2) viveu muita ansiedade. “Ou eu conseguia morar numa dessas casas ou desistia do curso. Não tinha dinheiro para me manter aqui em Salvador, tendo que pagar aluguel”, recorda. Eneida diz que, quando chegou à cidade, passou por uma confusão de emoções, tudo era novidade, inclusive viver numa mesma casa com tantas pessoas desconhecidas.

Na R1, que fica no Corredor da Vitória, moram 98 rapazes. Das três é a única exclusivamente masculina, possui 21 quartos e seis casarios, quartos instalados fora do prédio principal. Seus moradores declaram não conhecer a todos que ali vivem. “Como são muitos, os que têm mais afinidades formam clãs”, diz Éverson Rabelo, 23 anos, aluno do curso de Engenharia Mecânica. Na R2, localizada no Largo da Vitória, vivem 22 homens e 12 mulheres e na R3, no Canela, residem 12 homens e 80 mulheres.

A UFBA oferece aos seus alunos menos favorecidos economicamente serviços como residências universitárias, restaurante e bolsa alimentação. A Superintendência Estudantil (SET) da Pró-Reitoria de Graduação é o setor responsável por essa assistência aos universitários. Diana Tourinho, superintendente da SET e coordenadora das residências, acredita que a convivência entre pessoas diferentes e de origens distintas não é nada fácil. Por isso existe uma estrutura administrativa de co-gestão, onde os estudantes são os responsáveis pelas casas. Cada uma tem suas comissões: de representação, de alimentação, de hospedagem, de saúde, de informática, de manutenção e de cultura e comunicação. Essa forma de administração vem agradando os residentes, porque eles têm uma maior autonomia para gerir esses domicílios.

As regras de convivência são definidas em assembléias que ocorrem mensalmente. Os moradores de cada quarto também determinam suas normas. A quantidade de pessoas por quarto pode variar entre seis a 10 estudantes. Tudo é pensado com o objetivo de manter uma convivência amistosa e pacífica. Mas se alguém resolve desobedecer às leis internas, as punições são severas. “O residen pode ser advertido até duas vezes, suspenso ou, se a falta for muito grave, a pena é a expulsão”, declara Eneida que faz parte da comissão de representação da R2.

A Universidade Federal não dispõe de uma verba específica para fazer os serviços de manutenção necessários nas residências. As três estão instaladas em casarões antigos datados do século XIX. As paredes estão mofadas, a pintura com as cores desmaiadas, o piso de madeira sem brilho, as portas e janelas danificadas pelo cupim. O mobiliário é improvisado, o sofá da sala, assim como as mesas, cadeiras e armários já foram móveis que fizeram parte dos setores administrativos da UFBA há muito tempo. Agora, depois que viraram sucatas, passam ser utilizadas nas residências. A televisão é única, os telefones disponíveis são os públicos e a linha fixa só serve para receber chamadas. As residências são guarnecidas, 24h, por seguranças fornecidos pela UFBA.

Esses casarões ainda guardam vestígios de seu passado. Em alguns cantos, podem-se encontrar, quase esquecidos, esculturas, bustos, obras de arte que um dia enfeitaram os cômodos das residências de ricos comerciantes. Isso porque, no final do século XIX, o Corredor da Vitória era o local preferido dos empresários baianos para morar. E, ainda hoje, essas casas são alvos de especulações imobiliárias. Elas possuem valor histórico, estão localizadas em bairros da cidade considerados nobres e em terrenos cobiçados por empresas da construção civil interessados em erguerem prédios de luxo.

Festas
Mas nem tudo é problema nesses alojamentos estudantis. Cada residência tem suas festas anuais. Esses eventos divertem os moradores das casas, permitem uma melhor integração entre eles e outros universitários e trazem lucros. Com o dinheiro arrecadado com a venda dos ingressos, compram-se liquidificadores, televisão, aparelho de som, revistas e assinam jornais. A R1 promove o lual (festa ao ar livre), a R2 a lavagem e a R3 o halloween (festa do dia das bruxas). Todas as casas fazem o forró, entre o final de maio e início de junho. “Nossos forrós acontecem nas próprias casas, as pessoas de fora adoram, já estão nos ligando querendo saber quando vão ocorrer”, comenta Eneida.

Além de baianos, essas casas recebem também pessoas de outros estados. Patrícia Dutra, 21, é um exemplo disso. Ela é da cidade mineira de Jacinto e está aqui há 1 ano, estudando Medicina Veterinária. Sentada à mesa, num canto do corredor, em meio a livros de anatomia, Patrícia se recorda de quando chegou a Salvador: “Já estava acostumada a viver em comunidade, mas aqui tem mais pessoas. Fui muito bem recebida. O baiano é caloroso e acolhedor”. A mineira considera que “ser permeável e respeitar o espaço do outro” são as maiores dicas para se conviver num ambiente coletivo.

Criativos
A criatividade dos residentes também é um ponto alto nesses locais. As R1 e R3 nomeiam seus quartos através de números. Já na R2, cada quarto tem um nome e uma história. Existem denominações como Zoológico, Senzala, Berçário, CUG (Central Única das Gatas), UTI. Não se sabe ao certo os motivos desses nomes, uma vez que estão em vigor há anos, mas Eneida aposta numa explicação: “Dizem que a UTI tem esse nome porque nesse quarto sempre tinha alguém doente”.

Os quartos são os locais que têm mais vida e revelam traços pessoais de seus moradores. Um quadro na parede, uma toalhinha em cima da mesa, os lençóis que forram as camas, um rabisco ou uma figura na porta identificam um pouco da personalidade de cada um de seus residentes. As áreas de circulação são frias e impessoais, como corredores, cozinha, varanda, salas e servem como ponto de encontros, onde os estudantes conversam e trocam idéias. Na R2, alguns buscam o isolamento para concentrar-se nos estudos ou nos quartos, ou na sala de leitura. Essa sala é ampla, pintada de branco, com um grande quadro de giz em uma das paredes, mesas e cadeiras escolares completam o ambiente. Esse local de estudos fica nos fundos da casa, próximo à lavanderia. Vez em quando, alguém surge para pegar uma toalha ou alguma roupa que secava no varal.

E para conseguir um pouco de privacidade, os residentes lançam mão de certas estratégias. “As camas de baixo dos beliches são as preferidas, porque dá para armar a cabaninha. Usa-se um lençol para fechar o espaço ao redor da cama. Assim, pode-se estudar com uma lanterna quando a luz for apagada, por exemplo”, ensina Vanessa Dias, 21 anos, aluna de Secretariado.

Política
Nem só de festa e estudos vivem esses universitários. A prática da política é cada vez mais exercida por elas. As residências estudantis de todo o Brasil se relacionam e estão sempre trocando idéias e experiências, na busca da resolução de problemas comuns. A Secretaria Nacional de Casas de Estudantes organiza os encontros anuais. Em 2005, essa reunião ocorreu em Curitiba. Também existem encontros regionais com estudantes do Norte e Nordeste do país.

O tempo de permanência do estudante na casa corresponde à duração de seu curso. Depois de formado, a SET dá um prazo de três meses para que ele deixe a residência. Nem sempre se tem para onde ir e o retorno à casa dos pais, às vezes, é a solução mais viável. Essa ainda não é a preocupação de Jaime Pereira Júnior, 19 anos, nascido em Cruz das Almas. Ainda tímido e pouco à vontade, o calouro, como é chamado pelos companheiros da R2, só tem um mês como residente. “Meu curso, Geologia, dura 4 anos e meio, num semestre, só dá para pegar, no máximo, três matérias. Por isso tenho muito tempo ainda aqui”, diz o estudante, que espera, com o tempo, fazer novos amigos e conquistar seu espaço na casa.
(junho de 2005)

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