Os outros moradores da Graça

Posted on 31/08/2007

1



por Tiara Rubim

O grande executivo e o pedinte não se conhecem, participam de realidades opostas e possuem objetivos diferentes, mas têm algo em comum. Ambos moradores da Graça, questionam melhorias nas ruas no que diz respeito à segurança, limpeza e convergem na felicidade de considerar este um bom lugar para se viver. No entanto, se distanciam pelas suas moradias: prédios luxuosos e apartamentos bem decorados contrastam com o papelão usado para forrar o chão, a cama daqueles que dormem na rua. Sentados no meio fio, deitados em bancos de praça, essa parcela da população assiste de perto a desigualdade que compõe o cenário do bairro.

A família de Beatriz Souza da Cruz, 27, mora em uma casa em Valença. Bia, como gosta de ser chamada, veio para Salvador por causa de um homem. Portadora do vírus HIV, se apaixonou e teve dois filhos: Erick, de 3 anos e Emerson, de 5 anos. Ambos são também portadores da doença, moram na Casa de Convivência do Bonocô e estudam na creche do próprio lugar. Seu marido tomava conta dos carros dos barões na rua, mas foi morto ao tentar reagir ao roubo de um dos veículos. Logo quando chegou à cidade, Bia morava na Praça do Aquidabã. Veio para a Graça porque brigou com um rapaz que lhe furou com uma garrafa e hoje circula pelo bairro e redondezas: Vitória e Campo Grande. “Depois da garrafada, queimei ele. Fiquei com medo e fugi para o centro”, complementa.

O bairro também é tido como refúgio para Luciana Souza Santos, a Boneca Tchuck, apelido dado pelos amigos. Mora no bairro há 6 meses e antes disso vivia no Comércio, “entre os moleques que compravam e distribuíam o crack”. Alegou que se continuasse por lá com certeza não estaria viva. Ao mesmo tempo em que trança o cabelo de uma de suas amigas, fica observando os carros que chegam para estacionar. Larga tudo que está fazendo, corre e grita com muita intimidade com a senhora que acabava de soltar de um Vectra: “Ô minha lôra, venha cá, dê um trocado pra sua boneca, pode deixar aqui que eu tomo conta!”. É com esta simpatia e com um sorriso estampado no rosto que ganha seus trocados.

Segundo a pernambucana Luciana Amaral da Silva, 30, o problema de Salvador é a violência. “Assisto brigas entre jovens barãozinhos e meninos de rua. Tudo é motivo pra querer dar pedrada ou facada”, conta ela deitada no canto da calçada. Defensora da liberdade, Luciana tem uma irmã que mora no Vale das Pedrinhas e uma filha, também com residência fixa no Pelourinho. Ainda assim prefere ficar na rua, pois não gosta de se sentir presa. “As pessoas têm que poder circular tranqüilamente, com segurança, sem medo de ser assaltado ou machucado”, afirma, relatando ainda que a polícia muitas vezes espanca sem motivo aqueles que moram nas ruas.

Indiferença

A Associação de Moradores da Graça (AMOGRAÇA) não oferece nada na esfera social para os mendigos que moram no próprio bairro, embora participe da Campanha Graça Solidária, desenvolvida pela Igreja da Graça, para arrecadar alimentos não perecíveis e roupas que são doadas a comunidades periféricas.Alguns moradores, como Flávio de Paula, presidente da AMOGRAÇA, parecem não enxergar os mendigos em algumas ruas do bairro, mas eles estão por toda parte: deitados na calçada de ruas como a Teixeira Leal, Euclides da Cunha; na frente de prédios luxuosos, como a Mansão Bernardo Martins Catarino, na Rua da Graça; sentados nos bancos do Largo da Graça e encostados na porta de estabelecimentos, como a Frio Gostoso, à espera de um pouco de comida.

Em contraposição, Paula já foi à Prefeitura tratar do assunto: “Quis interferir, questionei a presença dos mendigos na Graça, se algo poderia ser feito para tirá-los de lá, mas o retorno que tive é que a rua é pública eles também são moradores dela. A própria Prefeitura cuidaria disso, através de seus órgãos municipais”, salienta.

Auxílio
Entretanto, existem pessoas que os ajudam e orientam. São informações sobre saúde, emprego, família e até educação. Solange Pinho, 52, médica psiquiatra, é uma dessas voluntárias. “Vez por outra forneço solicitações de exames pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para investigar doenças sexualmente transmissíveis e até mesmo uma gravidez”, afirma. A psiquiatra enfatiza que o importante é despertar nesses jovens idéias de atividades que eles possam desenvolver e ter algum retorno financeiro, ainda que bem pequeno. “Eles podem vender picolé, trabalhar em casa de família, fazer pequenos biscates. O objetivo é que com uma ocupação, seja possível, evitar o caminho do furto, roubo, assaltos e drogas”.

Mesmo morando na rua e expostos a um futuro incerto, existem aqueles que têm uma perspectiva de que a realidade pode ser melhorada. Não só de pedir esmolas, Simone Epaminondas dos Santos, 26, tentou ganhar a vida. “Já tentei trabalho, mas oportunidade falta para quem quer, para quem não teve escola”, enfatiza. Hoje, ela ainda pensa em ter um emprego no qual possa se manter e sustentar suas duas filhas: Suelem, de 6 anos, e Açucena, de 10.
(junho de 2005)

Anúncios
Posted in: CIDADE