Simpatia, prosa e água de coco

Posted on 31/08/2007

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por Sheila de Andrade

Uma mulher trabalhadora, informada e com muita coisa a dizer. Quem for à Reitoria da UFBA, no Canela, pode encontrar ao lado, na Barraca do Coco, Maria José de Jesus. Querida por todos, Lia, como é conhecida, veio de Amargosa há uns 20 anos e assim que chegou a Salvador fez uma bonita amizade com Anilton, seu melhor amigo até hoje. Com 42 anos, fã incondicional de Jean Wyllys, solteira, ela prefere ficar só a acompanhada de aproveitadores. “A pessoa ideal ainda não surgiu”, disse.

A vinda para Salvador não foi difícil, relata: “Vim morar com uma pessoa que tinha barraca. Tinha trabalho e lugar certo pra morar. Me adaptei rápido e soube fazer amizade”. Morando sozinha numa casa alugada, na Garibaldi, ela faz questão de afirmar que isso é temporário: “Estou trabalhando em cima de conseguir comprar uma”. Atualmente, três dos seus nove irmãos moram em Salvador, outros em Feira e Milagres. Seu pai, casado duas vezes, faleceu há quatro anos, e sua mãe ainda mantém a casa em Amargosa com três filhos.

Lia faz parte da grande porcentagem da população que assistia a quinta edição do reality show BigBrother. Ela conta que ia para a casa de um amigo que tinha conexão à internet, a convite dele também, para votar na permanência de Jean no jogo: “Às vezes ia dormir 3h da manhã na casa dele votando por telefone e pela internet. A conta veio muito alta”. Após a saída dele do programa, ela passou a acompanhá-lo pelas maiorias das publicações em revistas, inclusive a G Magazine. “Se ele chegar a Salvador e tiver concurso para fãs conhecerem ele, eu gostaria. Gosto dele, acho muito inteligente, o máximo. Aprendi com ele que a pessoa tem que ser simples e mostrar quem é mesmo”, disse.

Desde que chegou a Salvador, Lia não fez outra coisa além de trabalhar. Chega às 7h e sai às 19h ou 20h de segunda a sábado e reserva o domingo para arrumar a casa e comer um churrasco. Já vendeu revistas em outras barracas próximas à Casa d’Itália e ao Hospital Português, mas está há 10 anos vendendo frutas e balas na barraca licenciada ao lado da Reitoria. As frutas, ela compra no posto da Central de Abastecimento de Salvador (CEASA) na Rodovia CIA/Aeroporto, a 13 km do Aeroporto Internacional Deputado Luís Eduardo Magalhães, onde é mais barato. Segundo ela, que se intitula comerciante, a concorrência é amigável e inclusive um deles traz as compras do CEASA para ela, já que não dispõe de carro. Quanto às revistas, acredita que a opção pelas frutas foi melhor: “A revista hoje não tá tão boa quanto já foi, porque tem a internet e não precisa mais comprar. É só acessar www.não-sei-o-quê-mais e pronto”.

Lia, depois do trabalho, ainda se dirige ao Colégio Estadual Manoel Novaes, no Canela, onde cursa o 2° ano noturno, mas pensa em fazer supletivo. Tudo por incentivo de Anilton, que já tem nível superior, vida estabelecida e avalia cursar Comunicação Social com habilitação em Rádio e Tv. Quando falta na escola, geralmente cansada do trabalho, os professores passam perguntando o porquê da ausência e as colegas também. Já tendo recomeçado a estudar diversas vezes, ela admite não gostar, mas aconselha as pessoas a fazê-lo. “Admiro quem entra na faculdade, se forma cedo e vai trabalhar. Se o nível superior não vale, o que vale mais? Coitado de quem não tem nada”, disse, com a barraca em plena atividade.

Aliás, freguesia é o que não falta na barraca de Lia, que até linha telefônica fixa tem: “Conheço todo mundo e todo mundo me conhece. Trabalho com o público, tenho algo a falar, tenho conteúdo, sei dialogar. Eles puxam papo e eu também e aí já foi”, finalizou rindo. À clientela fixa, Lia atribui à qualidade da sua mercadoria, mais a sua alegria e boa conversa. “Esse aipim de Lia é falado, ninguém volta pra reclamar. É o aipim cacau: bota no fogo e vira mingau”, disse Neumar Celestino, 26 anos, operadora de caixa que conhece a comerciante há dois anos. Segundo Lia, o segredo de conquistar uma boa freguesia é saber tratar bem: “Se eu chego aqui e eu trato bem, você volta. Algumas pessoas que vêm de fora, depois de um tempo, voltam pra comprar aqui. Nunca discuti com ninguém”.

Lia informa aos transeuntes quais os ônibus que passam e em que ponto, além de localização de clínicas, quando a perguntam. “Sabendo eu informo e só gosto de informar sabendo”, disse enquanto orientava uma moça e cumprimentava outro amigo. Ela conhece muita gente e isso fica claro durante a entrevista que interrompe para conversar com amigos, conhecidos e até desconhecidos, criando um clima de amizade de anos. Esse modo de tratar traz benefícios para ela, que adquiriu respeito inclusive com os meninos da rua. “Pára um grupo de 10 e falam ‘não pegue nada da tia porque ela é moral, né, tia?’ Aí eu dou uma fruta, mas não todo dia pra não viciar. Se a gente não der, eles podem ficar revoltados e pegar as coisas sem eu ver”, disse enquanto um carro parava para comprar água de coco.

A barraca já estava ali quando ela comprou, com a ajuda de amigos. Lia paga anualmente cerca de R$ 300 pela licença para trabalhar e ainda afirma que “dá tranqüilo”. Segundo ela, o fluxo de gente é bom devido às escolas, clínicas e ponto de ônibus, mas o movimento cai quando tem paralisação e greve. O grande problema dela é a desorganização: “Sempre deixo tudo, a conta da barraca, telefone, cartão de crédito, para a última hora”. Lia ainda ensina como escolher o coco enfiando o facão: “O coco doce é o que tem bastante massa, o que tem pouca é menos doce. Quando o coco está verde é ótimo para o organismo, já quando tem aquela camada grossa, tá com muito colesterol”, ensinou.

Até chegar a essa barraquinha no Canela, Lia batalhou muito, inclusive sofreu com as ações dos fiscais da Secretaria Municipal de Serviços Públicos (Sesp). “Eu tinha uma barraca de cachorro-quente na época de Lídice e vendia na porta do colégio Odorico Tavares. De repente chegou o carro do rapa, desceram e levaram meu carro. Chorei bastante. Eu estava trabalhando, não tinha emprego”, contou. Mas esse não foi um caso isolado. Já com a barraca, ela estava fazendo um bico vendendo cerveja, num isopor em cima de um carro de mão, na Lavagem do Bomfim quando os fiscais levaram tudo. Ela chorou novamente e voltou para casa decidida a não fazer mais isso.

Lia acha errado vender no meio do caminho, atrapalhando as pessoas. Mas quando estão fora do meio fio, fazendo isso apenas para sobreviver, acha uma injustiça tomarem. “Tem gente que compra fiado pra pagar depois. Infelizmente não tem mais trabalho, a única solução que têm é vender alguma coisa na rua como ambulante”, disse chateada. Ela não aceita o que os fiscais da Sesp fazem, porque ao invés de organizar, acabam provocando bagunça. “Depois de João Henrique, eles estão mais humanos. Antes tinha um caminhão enorme que levava tudo”, afirmou.

Maria de Jesus está aí para comprovar que os comerciantes têm muita coisa para falar e sabem como fazê-lo. Lia mescla fazer a vontade do cliente com seu toque de informação. Seu maior receio é que um dia sua barraca seja retirada do local, como acontecia na época do governo de Lídice da Mata. Informando, conversando e vendendo, Lia segue sua vida com um sonho: “Quero fazer um curso de português para me expressar melhor. Lido com pessoas que têm níveis diferentes e português pra mim é fundamental. Depois vem matemática, porque a gente trabalha no comércio, né?”.
(junho de 2005)

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