Sob o olhar da Igreja

Posted on 31/08/2007

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por Sheila de Andrade

Ao lado do Largo da Graça, grades de ferro e escadarias laterais confluem para sua entrada principal. Ela se apresenta em branco e pastel e de portas verdes. Um portal de madeira trabalhada leva os visitantes a atravessar o estreito corredor, limitado pelos tradicionais bancos. A Igreja se revela numa estrutura pequena, porém rica em detalhes. No teto, a pintura da imagem de Catharina Paraguassu e seu sonho. No chão, misturados ao piso, lápides de famílias inteiras, inclusive os restos mortais da famosa índia. No altar, grandes pilastras da cor de ouro e com santos na base, revelam, ao fundo, Nossa Senhora da Graça.

Não se pode falar da Igreja de N. Sra. da Graça sem fazer um paralelo com a história de Catharina Álvares Paraguassu. Ela foi a responsável pelo que hoje representa essa Igreja. Já casada com o náufrago português Diogo Álvares Correia, apelidado Caramuru pelos tupinambás, começou a ter sonhos freqüentes com uma senhora carregando seu filho, pedindo que ela a buscasse. A índia tupinambá pediu ao marido que a procurasse. Ele encontrou uma imagem de madeira que havia boiado até a praia e estava em posse de índios. Levando-a, Catharina reconheceu a mulher e mandou construir um pequeno oratório numa tenda de madeira e palha.

Segundo a historiadora Simone Pinho Lima, de 50 anos, isso teria ocorrido por volta de 1535. “A construção era uma capela bem pequena chamada Morada e Oratória de N. Sra. da Graça, feita para Catharina”, afirmou. A estrutura que chamava atenção naquela época, hoje se encontra perdida aos olhos de quem tem pressa. Muitas pessoas que descem no ponto de ônibus próximo à Igreja, sequer olham para ela. Após a morte da índia, a capela e as terras próximas foram deixadas para a ordem dos beneditinos na década de 1580. A área herdada era grande e os moradores costumam dizer que não se sabe ao certo se a Igreja da Graça faz parte do Mosteiro de São Bento ou se é o inverso, mas a instituição é submissa a ele.

De acordo com Flávio de Paula, presidente da Associação de Moradores da Graça (AMOGRAÇA), a Igreja tem um papel importante tanto no povoamento do bairro como para a formação do povo brasileiro. “Os primeiros casamentos oficiais dos portugueses com as filhas de Diogo e Paraguassu foram realizados na capela. A família brasileira começou aqui”, comentou orgulhoso. Alguns moradores não conseguem assistir à missa, então passam rapidamente na Igreja, a caminho do trabalho para fazer uma breve oração. “Não dá tempo, a gente tem que trabalhar. É a vida”, disse apressada Marlene Sampaio, 45 anos, vendedora. Outros moradores dispõem de mais tempo como o aposentado Odimar Gomes, 69 anos: “Aqui encontro paz e tranqüilidade. Encontro forças para superar os problemas do dia a dia”, disse enquanto esperava a missa das 7h da manhã.

O bairro

O povoamento da Graça foi lento e só no começo do século XX o bairro foi urbanizado. Simone afirma que tudo indica que aquela capela, hoje substituída no mesmo lugar por uma estrutura maior, tenha representado a primeira devoção a Maria na América Latina. “Foi ao redor da Igreja que se desenvolveu o núcleo para a formação do bairro. No começo eram apenas chácaras e, posteriormente, pela distância do centro e com o status nobre que adquiriu, as famílias mais ricas começaram a se estabelecer aqui”, explicou a historiadora. Norma Seixas, já na terceira idade, salientou um aspecto que para ela é fundamental: “Na Igreja se tem uma consciência da família de uma forma maior. Ela abrange toda a comunidade do bairro”.

Atualmente a Igreja, além de exercer o papel religioso e social que lhe é tradicional, também permite que a AMOGRAÇA faça suas reuniões numa sala, já que não possui sede própria. A associação cuida dos interesses do bairro, o que inclui preservar a Igreja, e as estruturas que a compõe. “Já interferimos junto a Prefeitura para serem retirados postes e refletores que empatavam a visualização dela e conseguimos”, disse Flávio de Paula. Existe uma reciprocidade nessa ajuda, uma vez que os moradores apóiam os trabalhos desenvolvidos na instituição, como a Campanha Graça Solidária.

Solidariedade
Esse projeto é desenvolvido pelo Padre D. Bernardo Lucas, de 75 anos, e coordenado pelo presidente da AMOGRAÇA, Flávio, o que garante, indiretamente, a participação do grupo. A Campanha Graça Solidária consiste em arrecadações de alimentos não perecíveis, roupas e brinquedos em bom estado, para as dez entidades periféricas cadastradas como creches e asilos. “Quando não alcançamos o suficiente para suprir essas necessidades, fazemos brechós e bingos”, esclarece o coordenador.

Arnaldo Peixoto, 23 anos, secretário da igreja, disse que, embora raros, existem pedintes, principalmente aos domingos. “Eles ficam lá embaixo pedindo esmola, porque aqui dentro não é permitido”, afirmou. De acordo com ele, poucos fiéis assistem à missa durante a semana e talvez por saberem disso, esses pedintes não apareçam. Arnaldo chamou ainda atenção para o fato de apenas 20% de jovens comparecerem à igreja nos fins de semana, quando ela fica cheia. “Num bairro nobre muitos deles têm dinheiro e procuram se dedicar ao lazer em vez de participar de uma celebração”, disse.

A importância da Igreja da Graça para o Brasil e para o bairro fica muito clara. Ela existiu antes mesmo da fundação da cidade de Salvador e foi um dos motivos que levou Caramuru e Catharina a se mudarem do local que hoje representa a Barra. A instituição é testemunha histórica da transformação do pequeno e insignificante povoamento ao seu redor, em um bairro nobre da cidade. A Igreja permanece atuante até hoje e as missas do Padre D. Bernardo Lucas ocorrem de segunda a sábado às 7h e aos domingos às 8h e 19h.
(junho de 2005)

 

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