Tradição e modernidade

Posted on 31/08/2007

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por Mariana Riccio Franco

A Graça sempre foi considerada um bairro tradicional de Salvador. Mas com o passar dos anos e o desenvolvimento da cidade, o bairro foi perdendo um pouco do lado residencial e tomando um aspecto comercial. Para os moradores antigos e alguns comerciantes, que viram a Graça sofrer transformações, é assustadora essa mudança, mas para os novos moradores e para outros empreendedores isso é só a marca da modernização.

Alizia Viana do Bonfim, 63 anos, é dona da primeira banca de revista da região, que funciona há 53 anos entre o Largo da Vitória e o início da Graça. Desde os 10 anos de idade ela está lá acompanhando o desenvolvimento do bairro. “A Graça era mato, só tinha casarões antigos e bonde”, lembra, frisando que há uns 20 anos atrás que era uma época boa. A única opção de compra de revistas, jornais, folhetins e cigarro era o seu estabelecimento, que ficava 24h aberto, mas hoje, com tantas bancas, já não se tem tanto lucro assim. “Só aqui na Rua da Graça são quatro bancas de revistas, imagine no resto do bairro?”, comenta com um olhar de tristeza.

O presidente da Associação de Moradores da Graça (AmoGraça), Flavio de Paula, afirma ser contra esse desenvolvimento todo na Graça. Ele disse que isso desvaloriza o bairro e que este acaba por perder sua principal característica, que é a tranqüilidade de um bairro residencial. “Nós já fizemos interferências junto à prefeitura para que não conceda alvarás para o bairro não perder sua identidade”, explica ele, se referindo a liberação de alvarás para novas lojas, com uma expressão de que não adianta se manifestar: “As tendências são essas, daqui a pouco não vai existir um local sem comércio e tudo vai se tornar uma zona”.

Mas nem todos são contra as mudanças que estão acontecendo na Graça. “A loja do Frio Gostoso começou aqui na Rua da Graça com uma portinha, quase não se tinha comércio aqui perto. A chegada de uma sorveteria mais luxuosa agradou muito os moradores”, comentou o funcionário Edisío Conceição Almeida, 38 anos, que trabalha há 10 anos no estabelecimento. A loja, que já tem 22 anos, está funcionando na Rua da Graça há 15 e tem dois anos no espaço atual, mantém um público fiel. “O Frio Gostoso antigamente funcionava logo aqui ao lado. Nesse espaço já funcionou uma pizzaria, depois uma lanchonete e uma chopperia, se tornando agora a sorveteria, que antes tinha um ar rústico e hoje possui um ar mais moderno”, falou o gerente Vanildo Lima, 33 anos, que também é funcionário há 10 anos.

“Nada melhor do conforto de só precisar descer a esquina e comprar um pão fresquinho. Só de pensar em ter que ir a outro bairro comprar pão me dá desânimo, prefiro dormir com fome”, disse a estudante Maria Luisa Florence, 15 anos. Ela afirma que é muito mais tranqüilo poder contar com shoppings, lanchonetes e padarias perto de casa, e a idéia de que o bairro está perdendo suas características originais não compensa o desgaste de sair do bairro para comprar algo. “É normal as pessoas evoluírem, quem dirá um bairro. Tudo muda sempre, por que com a Graça seria diferente?”, pergunta a estudante.

A divergência de opiniões sobre essa mudança de bairro tradicional para comercial é notável em quase todos os ambientes freqüentados na Graça. Algumas pessoas acham que é possível manter o aspecto tradicional do bairro mesmo com o comércio se expandindo, tentar fazer o antigo conviver com o moderno, trazendo assim harmonia e agradando a todos. Outros, entretanto, não consideram essa possibilidade viável. A expansão do comercio acabaria com o modo antigo e conservador da Graça.
(junho de 2005)

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